Motoqueiro Fantasma #01 – Encontros diabólicos
Noite.
Na calmaria de Nova York, um carro entra em um beco e ali desaparece. Na escuridão, um homem sai do veículo e se dirige até um outro sentado encima da lata de lixo.
- Demorou, hein? – diz o homem misterioso, pulando da lata.
- Poxa, o filho da mãe do Gerome não quis liberar pra mim a droga. Então apaguei ele. Mas tá aqui.
Conforme o prometido.
- Valeu, Bill! Tá ligado que tu é meu parceiro né?
- Claro, Danny! Só não deixa seu irmão ficar sabendo, beleza?
- Sussa. Aí, to indo embora! Depois o chamuscado aparece aí e eu to fodido.
- Beleza. Até mais então.
O homem entra no carro e parte. Traficantes vivem apenas para estragar a vida das pessoas. E era isso que estava acontecendo com Danny Ketch. Viciado em maconha e crack.
O carro arrancou pela rua escura e por dois quilômetros fora tudo tranqüilo. Tudo tranqüilo demais. Um barulho de moto ensurdecedor preencheu seu ouvido, mas logo sumiu. Isso assustou o traficante Bill. Olhou para trás e nada viu, apenas a poeira que seu carro levantava.
Quando olhou para frente, uma surpresa. O Motoqueiro Fantasma estava na sua frente. Sua moto lendária pegava fogo. Uma corrente estava em suas mãos. Um macacão de motoqueiro preto com pequenos espinhos saindo de seu ombro dava um toque mais sombrio à criatura. Em suas costas, uma arma calibre 12 com um estilo fantasmagórico.
Bill brecou com toda a força seu carro e olhou para os lados. Uma cabana velha no meio de uma floresta pequena se destacava em meio à paisagem. Bill saiu de seu carro e correu o mais rápido possível para a cabana. Enquanto isso, o Motoqueiro se deliciava com a situação. Mais um pecador pagaria por seus pecados.
O herói não estava com pressa. Caminhava lentamente enquanto Bill corria rapidamente para tentar escapar de seu destino marcado. A casa era simples, sem iluminação e com um cheiro ardido e estranho. O traficante empunhou sua pistola e apontou para a entrada da casa. Passos fora do recinto começaram a ressoar pelo lar desabitado.
Suor escorria das têmporas de Bill, e ele limpava o seu nariz freqüentemente. O terror estava se apossando de seu corpo mortal. Logo não só os passos, mas também as correntes se fizeram ouvir. Uma risada maléfica e nada mais fora ouvido desde então.
Bill olhava para os lados, buscando qualquer vestígio de que o Motoqueiro não havia ido embora. Mas nada mais fora ouvido. Nem um som, nada. O traficante, agora assustado, engatilhou sua arma e olhou para ela.
Uma confiança se apossava de sua alma. Uma confiança errônea é claro.
O barulho ensurdecedor da moto e da morte assustou Bill e fez com que ele desse dois tiros para cima, furando o telhado da casa. Uma risada maléfica e o silêncio aterrador novamente atacou.
- O que quer de mim? – gritou Bill.
- Sua vida. – sussurrou o motoqueiro, ao lado de sua vítima.
Bill apontou a arma para o herói e atirou inúmeras vezes, mas nenhum tiro surtiu efeito. O motoqueiro passou a mão de leve sobre sua jaqueta agora furada e as balas caíram no chão. O ser obscuro, com uma cabeça em chamas, pegou sua arma calibre 12 e apontou para o inimigo.
Bill chorou como um bebê e atirou mais duas vezes, até a arma travar.
- Por favor! Não faça nada comigo! – implorou aquele homem maldoso.
- Sua sentença já foi dada. Culpado! – a caveira ambulante disse.
O Motoqueiro guardou novamente sua arma e se aproximou de Bill, que recomeçara a chorar. As mãos esqueléticas do herói grudou no colarinho do traficante e levantou-o centímetros do chão. As pernas de Bill ficaram suspensas no ar, enquanto o Motoqueiro o encarava com seus dentes e sua cabeça flamejante.
O traficante ainda continuava a chorar como um bebê, mas isso não atingia o emocional do herói fantasma, talvez este nem o tivesse. O Motoqueiro ergueu Bill mais alto e o jogou para o outro lado da pequena casa. Bill caiu e assim ficou, tentando fingir que estava morto. Mas o som de seu coração era suficientemente alto para Johnny Blaze, o Motoqueiro Fantasma, entender a jogada.
Blaze o ergueu mais uma vez do chão e dessa vez Bill recomeçara a chorar.
- Olhe nos meus olhos! – disse o herói.
E o Olhar da Penitência, a arma mais mortal de todo cavaleiro fantasma, fez mais uma vítima. O sangue de inocentes fora derramado pelas mãos daquele traficante que acabara com a vida de Danny Ketch.
Johnny Blaze caminhou lentamente até a saída, deixando aquele homem morto com os olhos petrificados jogado no chão. Subiu em sua moto que o esperava e assim partiu na noite, até que o som e a imagem flamejante fossem apagadas pela escuridão.
O dia raiou e Danny Ketch acordou. Tomou um banho relaxante e tomou seu café da manhã. Sua aparência estava acabada. Olheiras profundas, nariz vermelho, pupilas dilatadas e um corpo magro, extremamente magro. Ouviu um barulho estranho na sala de estar. Pegou uma faca no caso de ser um invasor e foi ao encontro do som. Olhou para os lados da sala, mas nada viu.
- Bom dia. – uma voz estranha, porém familiar assustou Danny.
O garoto se virou para encarar o invasor e viu Johnny Blaze. Ele estava com o cabelo bagunçado, olhos com remelas. Se espreguiçou e Danny perguntou:
- O que está fazendo aqui?
- Uma visita ao meu irmão.
- Cê tá fedendo à enxofre!
- Nossa, nem percebi.
- Tá, acho melhor tu ir embora agora... Não to me sentindo bem!
- Mas é claro, VOCÊ FICA SE DROGANDO! – Johnny se exaltou.
Danny o olhou nos olhos e abaixou a cabeça, uma lágrima caiu no chão e o garoto deu as costas ao irmão, caminhando para o banheiro.
- EU TE AVISEI MUITO BEM SOBRE EM QUE ESTAVA SE INTROMETENDO! MAS VOCÊ NÃO LIGOU! NÃO DEU A MÍNIMA! – gritou Johnny.
- VOCÊ SABE QUE EU NÃO REAJI BEM COM A MORTE DO PAPAI! VOCÊ SABE JOHNNY, VOCÊ SABE COMO EU SOFRI! MAS AO INVÉS DE FICAR DO MEU LADO, FICOU COM A ROXANNE! ÓTIMO IRMÃO É VOCÊ! QUER SABER? QUERO QUE VOCÊ MORRA NO INFERNO!
Danny agora estava descontrolado, olhava para Johnny com olhos de um serial killer. Correu em direção ao irmão com o punho levantado, e com uma rapidez, Johnny conseguira se esquivar do soco que vinha direto à sua face.
- Mas que droga Danny! Pare e pense se isso é certo! – Johnny disse, olhando nos olhos do irmão, enquanto segurava seu braço.
Danny agora parecia se acalmar, e por isso Johnny deixou com que ele tivesse seus braços livres. Sentou-se na cama desarrumada e olhou para o irmão mais velho, havia lágrimas em seus olhos, sem falar em suas bochechas rosadas e olhar pecador.
- Você sabe como foi difícil pra mim? Você pode ter levado numa boa toda essa merda que aconteceu com a nossa família, mas eu não!
- Isso foi a décadas Danny. Está na hora de esquecer.
- Ah! Esquecer? Sabe quando você idolatra uma pessoa, e de repente, essa pessoa morre de um jeito que você nunca imaginou que iria acontecer? Pois é! Papai era tudo pra mim! Tudo! Eu o amava tanto e você sempre foi o filho bastardo! O maldito que nunca pensou em pelo menos uma vez na vida em abraçar o seu velho! Sabe por que Johnny? Por que você tinha o maldito envolvimento com a vadiazinha da Roxanne. – A face de Danny começou a se deformar, voltando a ficar cheia de ódio e rancor. – E então, papai morreu. Você sofreu, lógico! Sofreu mais por outro motivo do que a morte do papai! Agora, você nunca esteve presente em minha vida! Ótimo irmão mais velho que eu tenho! Eu precisava de ajuda. E sabe onde eu encontrei?! Isso mesmo, em Bill. Ele me ajudou a superar tudo o que me afligia. Me ensinou o verdadeiro significado da vida! Mas quer saber? Eu não me importo com essa merda de vida! Se um dia eu morrer, você nem ninguém vai se importar.
- Não diga isso Danny. Eu te amo! Você é meu irmão! – Johnny agora deixava com que lágrimas saíssem de seus olhos.
- Olha... Só suma daqui e nunca mais apareça! Deixe minha vida e deixe com que eu me foda nessa merda toda!
Johnny abaixou a cabeça e olhou novamente para o seu irmão. Como a droga podia mudar uma pessoa de uma maneira inimaginável. Ódio e rancor foram as coisas que o pai de Danny e Johnny sempre abominara, mas devido às parcerias, Danny estava mudado. Talvez para sempre.
Saiu do apartamento sem nada dizer. Montou em sua moto e assim partiu. Como ele podia ser tão fraco à ponto de deixar com que seu próprio irmão o fizesse se sentir um monstro horrível. Justo ele, aquele herói que salvara Felicia Hardy da morte certa pelas mãos de Tantibus, o demônio agora preso nos quintos do inferno. Algum laço espiritual os unia. Era algo estranho, mas Johnny não tinha tempo de pensar no caso.
Acelerou sua moto e depois de dois quilômetros ele chegara ao seu destino. Precisava ver um rosto amigo, precisava de alguém para desabafar. E esse alguém era Roxanne.
Atravessou uma pequena rua sem muito movimento e assim encontrou o prédio em que ela morava. Havia várias pichações dentro e fora do edifício. Um degrau de madeira estava quebrado, afundado como se alguém tivesse pulado ali inúmeras vezes, até quebrar. O cheiro ruim de bebida invadiu suas narinas, e ele espirrou, precisava tirar sua namorada dali de alguma maneira.
Bateu numa porta de número 23 e Roxanne abriu. Ele a olhou profundamente nos olhos e a abraçou. O cheiro gostoso do perfume fez com que sua crise de espirro cessasse. Ela o empurrou gentilmente e perguntou:
- Johnny, o que está acontecendo?
- É o Danny. Ele está se afundando nas drogas. E agora que eu vejo onde você mora, me dá uma vontade louca de te arranjar um lugar melhor. Mas você sabe que eu em breve estarei comprando aquela casa e iremos morar ali.
- Johnny, não tenho pressa. Quanto ao Danny, só depende dele sair dessa vida. Você não pode sofrer por ele.
- Eu não entendo como isso pode acontecer com esses garotos de hoje em dia! Nenhum deles tem a cabeça no lugar.
O dia passou e Johnny avisou que tinha que voltar à rotina diária de ser o Motoqueiro Fantasma. Ele não se lembrava de nada do que acontecia quando ele se transformava no Espírito da Vingança, apenas breves flashes memoriais. Deu um longo beijo em Roxanne e partiu, assim como o sol.
Logo a noite começara a cair, a sombra dos prédios sumia, dando lugar à penumbra noturna. E a cabeça do espírito da vingança era a única iluminação. A moto já passava de 180 por hora e o Motoqueiro não parava de acelerar. Embora fossem diferentes, a alma de Johnny Blaze ainda sofria por Danny Ketch.
Na verdade, Danny não era praticamente um irmão. Ele era filho de Barton Blaze, mas depois que a mãe dele morreu, buscou refugio com o pai. Depois de Barton ter morrido, Danny não suportara muito e acabou se afundando em drogas. E era isso que deixava Johnny irritado.
Empinou a moto e arrancou pela rua vazia e silenciosa. Conhecia a cidade com a palma das mãos esqueléticas e sabia muito bem que, naquele horário, aquela rua era muito movimentada. Aquilo era deveras estranho.
Sentiu um frio incomum e uma chuva ácida começara. Ele sabia o que aquilo significava. A moto agora parecia se tornar independente. Aqueles eram sinais da criatura que ele mais odiava. A criatura que matou seu pai. A criatura que transformara sua vida num inferno, literalmente. Mephistópheles. Ou Mefisto. Um dos duques do Inferno.
A moto o levara até uma rua escura e estranha, apenas pelo fato de Johnny não conhecê-la. O veículo parou e o Motoqueiro desceu. Um raio tocou o chão e um enorme estalo se fez ouvir. O Motoqueiro tampou os olhos e depois de um tempo, quando a luz azulada cessou, olhou para frente. Ali, diante de seus olhos, estava Bill. “Mas como é possível?” pensou o Motoqueiro. Ele aplicara naquele traficante o temível olhar da penitência, mas agora ele caminhava.
O sorriso em sua face era de alguém que vira o outro lado da vida, o Motoqueiro sabia disso. Ficara com o mesmo sorriso quando vira o inferno e como ele era. A moto recuou metros de distância em marcha ré e o Motoqueiro Fantasma caminhava para frente contra sua vontade.
Ainda assim, Bill continuava parado, com um olhar estranho. Seus olhos antes petrificados agora tinham uma coloração vermelho-amarronzado. Minutos depois, o Motoqueiro parara, parecia que a hipnose a qual ele fora submetido, havia acabado.
- Como está, Johnny?
- Mefisto! – reconheceu o Motoqueiro.
- Oh! Mefisto?! Eu?! Está enganado, meu amigo.
- O que quer de mim?
- Eu quero a sua alma, que me pertence.
- Eu já disse que você não a terá, Mefisto.
- Eu já disse. Não sou Mefisto, meu irmão caçula. Não confunda as coisas.
Johnny não entendia o que estava acontecendo. A alma que possuíra Bill emanava uma aura diferente da de Mefisto, desta vez. Ele tinha que descobrir quem era aquela criatura, que se intitulou irmão mais velho de Mefisto.
- Quem é você? – perguntou o Motoqueiro.
- Oras, não sabe quem sou eu? Eu sou responsável pela sua alma. Zarathos é minha criação!
- Lúcifer?
- Chega de chutes! Vou lhe dar algumas dicas. Não sou Lúcifer, meu pai, se eu o fosse, a Terra já estaria nas Trevas.
- Diga-me quem é, seu bastardo desgraçado!
- Uh! Blasfêmias e mais blasfêmias. Como eu adoro isso.
O Motoqueiro tentou correr e aplicar um soco contra a criatura, mas percebeu que seu corpo não podia se mover.
- Seguinte. Estas são as melhores dicas que eu posso lhe dar. Afinal, as charadas são as coisas que mais me divertem, além de ver vocês, pragas de Deus, brigando por um pedaço de terra. Lá vai: Eu era adorado pelos Templários, homens bons da época das Cruzadas. Sabe, foram eles que me deram força para eu ser o que sou hoje. Tempo depois, a Maçonaria. Esses malditos maçônicos sabem como me louvar. E eu os amo, assim como o seu Deus ama a sua horrível criação de barro.
Agora tudo fazia sentido. O Motoqueiro sabia quem era aquele homem, ou melhor, demônio parado à sua frente. Era a criatura que fora pintada por Levi, um século atrás. E agora ela se encontrava diante dele, com a face de um homem, mas o coração de um desumano.
- Baphomet. – sussurrou o Motoqueiro.
Em breve: A primeira batalha de Motoqueiro Fantasma contra Baphomet, e Danny luta contra as drogas!
Continua
Shadow
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